Mar/104
O Preconceito Não é Ruim
Porque, veja bem, formar um conceito prévio a respeito de alguém pode ser de imensa utilidade. Afinal, isso pode ajudar na hora de decidir sobre o que conversar, sobre o que perguntar, que palavras usar. Qual o grande problema em imaginar que uma garota provavelmente não joga videogame e não gosta de carros? Qual o grande problema em imaginar que um garoto provavelmente não sabe cozinhar?
De todo um universo de possibilidades, é de extrema utilidade ter uma ferramenta para, inicialmente, se aproximar de uma pessoa. Ou se afastar.
O preconceito não é ruim nem mesmo quando se pensa coisas ruins a respeito de outrem. Oras, eu particularmente não costumo me dar bem com pessoas muito religiosas, então costumo evitar muitas conversas com pessoas que eu percebo que são muito religiosas. Eu acho que tenho o direito de escolher com quem prefiro conversar, não é mesmo?
Ou, do caso clássico: se eu estou andando de noite numa rua pouco movimentada e me sinto seguida por um homem encapuzada, realmente não há nenhuma lógica em de repente ir para um lugar mais iluminado? Ou entrar em algum estabelecimento que estiver aberto e com mais pessoas?
Não, o problema não é o preconceito – tal como uma arma, seu perigo consiste na maneira em como é usado. Em como serve de amparo para práticas cruéis, sádicas, desumanas…
Voltando aos exemplos anteriores, qual a lógica em se virar e ameaçar ou se tornar agressivo com alguém que pareça estar lhe seguindo? Ou, no caso das pessoas religiosas, que direito eu tenho de atacá-las por terem uma crença diferente da minha? Eu não tenho a obrigação de concordar com elas mas, no mínimo, tenho o dever de respeitá-las. Por quê? Porque eu espero ser respeitada.
Eu não sou religiosa, mas acho que todos seriam melhores se tentassem seguir algo simples como “não faça aos outros o que não querem que façam com você”, algo que Jesus teria dito na forma de “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.
Ou ainda, “sua liberdade termina onde começa a do outro”.
Parece tão simples, não é mesmo? Eu sigo minha vida, tendo minhas opiniões, fazendo o que eu acho correto, e permitindo que os outros façam o mesmo. É o que eu tento fazer, diariamente. Eu não sou obrigada a concordar com o modo de vida alheio, mas isso não me dá o direito de interferir na vida de alguém que não está interferindo com a minha. Eu não saio do meu caminho para ofender alguém de cuja opinião eu discorde – e se for para discutir, que se discutam as opiniões, não as pessoas.
Às vezes eu leio relatos de pessoas que sofreram preconceito – por sua religião, por sua cor de pele, gênero, “opção” sexual… me dá vontade de chorar. Por que fazer mal a alguém que não te fez nenhum?
E eu não entendo, praticamente todas as pessoas já sofreram preconceito em algum ponto de suas vidas – eu já fui discriminada por ser uma menina quieta e nerd. Sério, só por isso. Riam de mim, faziam brincadeiras de mal gosto. Normalmente eu nem percebia, mas tinha dias que eu chegava em casa e chorava até cansar. E foi algo durante um curto período de tempo da minha vida, em um grau bastante ameno. Enfim, um preconceito ínfimo em vista do que muitas pessoas sofrem. Mas foi mais do o suficiente para eu ter ciência do que é ser jogada de lado por ser… eu. Tendo em vista isso… COMO alguém sofre abuso por conta de preconceito e… faz o mesmo? É sempre meio assustador ver negros homofóbicos, só para dar um exemplo qualquer, justamente por negros usualmente sofrerem tanto preconceito… e de repente eles não aprendem que não é correto, não é ético, PREJUDICAR alguém por conta de uma idéia pré-formada? Ou simplesmente impera a idéia de “se podem fazer comigo, posso fazer com os outros”? Ou então, religiosos com preconceitos contra gays… aqui, reina o ápice da hipocrisia: pregar o amor ao próximo, desde que o próximo seja da mesma religião, da mesma cor, mesma “opção” sexual… e de que preferência assista aos mesmos programas de televisão. Aí a gente ama. Senão a gente tem pena, e xinga.
Os atos movidos a preconceito possuam uma espontaneidade assustadora. As pessoas xingam, gritam, cospem, demitem, viram a cara, enfim, toda sorte de maldade, sem pensar duas vezes. Sem questionar a razão. Demitir uma pessoa por cor, credo ou opção sexual não faz o menor sentido, não se alimenta de qualquer tipo de lógica e, no entanto… acontece. O mesmo vale para aquelas pessoas que não passam da primeira fase de uma entrevista de emprego, que são mal atendidos em certos estabelecimentos… tudo por conta de um modo de vida, de uma característica sua, que não afeta sua capacidade de trabalhar, de se relacionar… por quê? Por que é tão fácil se esquecer que aquela é só uma pessoa como eu e você? E que tem tanto direito de viver sua vida quanto eu e você?
Sabe, todo mundo faz burradas. Todo mundo é grosseiro. Sinceramente, eu nem sou um bom exemplo – vez por outro dou patadas aleatórias nas pessoas. Sério, eu juro que tento, mas eu sou meio anti social, não sei lidar com as pessoas… às vezes magôo alguém e nem percebo. Mas sabem o que eu faço quando percebo que fiz cagada, que magoei alguém? Eu vou lá e peço desculpas. Às vezes eu percebo que machuquei MESMO e aí eu começo a chorar feito uma menininha – mas, tudo bem, eu sou mesmo uma chorona. Eu aprendo, porque eu percebo que foi um erro – hoje em dia é bem mais raro eu magoar alguém só porque estou num dia ruim, porque eu aprendi a me controlar. Porque aprendi com meus erros.
Mas quando alguém ofende alguém pelo preconceito, essa pessoa não enxerga o próprio ato como erro, mas o justifica de alguma maneira injustificável – “mereceu, para aprender a ser homem”, “tem que sofrer, negro vagabundo”,”religioso é tudo retardado, tem que mandar se foder”,”empregado só serve para obedecer, tem que abrir a boca não”. E, ao não admitir o erro, persistem em atos perversos contra quem não fez nada para provocar tal ira.
Sabem o que é preconceito, na minha vida? Eu uso assim: imagino umas características da pessoa pelo que eu posso ver. E, assim que eu tenho contato com a pessoa, começo a desmanchar esse preconceito e colocando uma imagem da pessoa no lugar. E não é que aquela menina adora videogame? E aquele menino, como cozinha bem…
Na verdade, nem sei se meu preconceito é bem preconceito, de tão aberto. Mal se pode dizer que formo uma imagem. E a pequena imagem que formo, deixo sumir assim que começo a conhecer a pessoa… afinal, é sempre melhor conhecer uma pessoa do que o preconceito, não é mesmo?
Jan/104
Os Homens e as Rugas
Não posso ver fotos de atores e pessoas famosas de mais idade, especialmente se houverem fotos de homens e mulheres, sem perceber o verdadeiro pavor que mulheres adquirem de rugas. Os homens, em boa parte, abraçam as rugas , deixando-as fazerem parte de seu rosto e de sua expressão como tem de ser – se são atores, percebe-se até que atuam melhor, aprendendo a lidar com as novas expressões que surgem por conta das rugas.
Os homens envelhecem e se tornam charmosos com suas ruguinhas, sua falta de cabelo, suas manchas na pele. Não digo um charme sensual, mas o charme de um porto seguro, da maturidade, da rocha à beira da praia que já aguentou tantas tempestades e agora carrega suas marcas em sua pele.
As muheres, por outro lado, se tornam aberrações – não sabem lidar com suas rugas e, se tem dinheiro, acabam banindo-as. O resultado é pavoroso, com rostos desprovidos de expressão. Não digo que uma mulher não deve ser vaidosa, mas qual a beleza em se despir das marcas dos sorrisos? Das experiências, das lágrimas? Dos sucessos e das derrotas? Por que ter uma cara falsa e que não combina com a sua idade é melhor do que carregar suas rugas com orgulho, como fazem os homens?

Meu avô e suas rugas. Não consigo imaginá-lo sem elas.
É claro que existe a saudade, a nostalgia, e talvez seja isso que as mulheres buscam – uma maneira de não deixar os tempos nos quais eram paradas na rua para receberem cantadas, os tempos nos quais atraiam olhares ao caminharem por aí. Mas querer viver um tempo que já passou é apenas uma receita para frustração e decepção.
Esse é um grande mal de homens e mulheres, não é mesmo? Não sabemos apenas seguir em frente, sem querer voltar para trás. Não sabemos lidar com a perda de entes queridos, com a mudança de nossos corpos, com as fases da vida, enfim. O pavor das mulheres a rugas é apenas mais uma manifestação dessa incapacidade em aceitar a passagem do tempo.
Poderiam me chamar de hipócrita, afinal, é claro que uma garota de 22 anos pode admirar as rugas, assim como os poetas admiram o bucolismo por não terem de capinar para sobreviver, como os artistas que amam a pobreza sem ter de morar em uma favela. Mas digo desde já que reconheço que irei temer as rugas um dia – mas da mesma maneira que temi cada transformação em meu corpo, em minha vida. Por vezes já sinto falta da minha infância, da falta de preocupação, e faz tão pouco tempo que deixei de ser criança! A bem da verdade, acho que ainda não deixei de ser, e creio que talvez jamais deixarei de ser criança.
Claro, claro, um rosto sem rugas é mais bonito… será? Devemos então demolir os prédios antigos, não é mesmo, e trocar por novos. Dane-se a história que eles contam, danem-se as memórias, as tantas lembranças que podem se esconder em meio aos pilares de uma construção antiga e que talvez desapareçam com uma reforma tão radical.
Talvez uma pessoa cheia de rugas não chame tanto a atenção nas ruas… não seja tão elogiada por desconhecidos… mas, ah, os que a conhecem! Que alegria envelhecer ao lado de alguém, e numa tarde qualquer poder olhar para essa pessoa e saber quais rugas vieram primeiro, e se lembrar de como elas foram aparecendo… e lembrar-se de tantas coisas e ficar imaginando quais fatos ajudaram a criar aquelas rugas. Talvez naquela dia, foi tão engraçado… ! Ou talvez com aquela vitória, com aquela conquista… e talvez aquela ruga sob seus olhos tenha ficado mais aparente depois da perda daquele ente querido…
Quando rio, eu rio tão abertamente, que pequenas ruguinhas se formam, são as ruguinhas do meu sorriso. E os anos vão passar, e eventualmente essas ruguinhas irão permanecer mesmo quando eu não estiver sorrindo, e eu vou ficar feliz – vou ficar feliz porque estas serão as marcas de que eu ri muito. E terei marcas provocados pelo choro, pela raiva, pela alegria… como isso pode ser ruim?

Essa marquinha do meu sorriso um dia se transformará em ruga... e isso será realmente ruim?
Não há necessidade para radicalismo, claro – assim como um museu ou um prédio histórico precisa de manutenção para ostentar sua história da melhor forma, seu rosto e seu corpo também podem ser bem cuidados para realçar suas melhores lembranças, suas melhores marcas. Mas não deveria existir a necessidade de transformar esse cuidado em uma revolução, em uma descontrução de coisas que são tão belas, tão icônicas. Não deveria existir a necessidade de, ao se chegar a certa idade, destruir sua expressão com coisas como botox e derivados.
Acho que, no fundo, eu só gostaria de poder dizer aos meus pais, aos meus tios, aos meus avós… que eu amo suas rugas, então, por favor, não tenham vergonha delas. Não sejam superficiais em ver apenas aquilo que está na superfície… vejam as marcas do tempo em sua pele, as memórias, as experiências, impregnadas em sua pele… e então vocês talvez concordem comigo sobre a beleza das rugas.
