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Jan/10
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Os Homens e as Rugas

Não posso ver fotos de atores e pessoas famosas de mais idade, especialmente se houverem fotos de homens e mulheres, sem perceber o verdadeiro pavor que mulheres adquirem de rugas. Os homens, em boa parte, abraçam as rugas , deixando-as fazerem parte de seu rosto e de sua expressão como tem de ser – se são atores, percebe-se até que atuam melhor, aprendendo a lidar com as novas expressões que surgem por conta das rugas.

Os homens envelhecem e se tornam charmosos com suas ruguinhas, sua falta de cabelo, suas manchas na pele. Não digo um charme sensual, mas o charme de um porto seguro, da maturidade, da rocha à beira da praia que já aguentou tantas tempestades e agora carrega suas marcas em sua pele.

As muheres, por outro lado, se tornam aberrações – não sabem lidar com suas rugas e, se tem dinheiro, acabam banindo-as. O resultado é pavoroso, com rostos desprovidos de expressão. Não digo que uma mulher não deve ser vaidosa, mas qual a beleza em se despir das marcas dos sorrisos? Das experiências, das lágrimas? Dos sucessos e das derrotas? Por que ter uma cara falsa e que não combina com a sua idade é melhor do que carregar suas rugas com orgulho, como fazem os homens?

Vovô e suas rugas

Meu avô e suas rugas. Não consigo imaginá-lo sem elas.

É claro que existe a saudade, a nostalgia, e talvez seja isso que as mulheres buscam – uma maneira de não deixar os tempos nos quais eram paradas na rua para receberem cantadas, os tempos nos quais atraiam olhares ao caminharem por aí. Mas querer viver um tempo que já passou é apenas uma receita para frustração e decepção.

Esse é um grande mal de homens e mulheres, não é mesmo? Não sabemos apenas seguir em frente, sem querer voltar para trás. Não sabemos lidar com a perda de entes queridos, com a mudança de nossos corpos, com as fases da vida, enfim. O pavor das mulheres a rugas é apenas mais uma manifestação dessa incapacidade em aceitar a passagem do tempo.

Poderiam me chamar de hipócrita, afinal, é claro que uma garota de 22 anos pode admirar as rugas, assim como os poetas admiram o bucolismo por não terem de capinar para sobreviver, como os artistas que amam a pobreza sem ter de morar em uma favela. Mas digo desde já que reconheço que irei temer as rugas um dia – mas da mesma maneira que temi cada transformação em meu corpo, em minha vida. Por vezes já sinto falta da minha infância, da falta de preocupação, e faz tão pouco tempo que deixei de ser criança! A bem da verdade, acho que ainda não deixei de ser, e creio que talvez jamais deixarei de ser criança.

Claro, claro, um rosto sem rugas é mais bonito… será? Devemos então demolir os prédios antigos, não é mesmo, e trocar por novos. Dane-se a história que eles contam, danem-se as memórias, as tantas lembranças que podem se esconder em meio aos pilares de uma construção antiga e que talvez desapareçam com uma reforma tão radical.

Talvez uma pessoa cheia de rugas não chame tanto a atenção nas ruas… não seja tão elogiada por desconhecidos… mas, ah, os que a conhecem! Que alegria envelhecer ao lado de alguém, e numa tarde qualquer poder olhar para essa pessoa e saber quais rugas vieram primeiro, e se lembrar de como elas foram aparecendo… e lembrar-se de tantas coisas e ficar imaginando quais fatos ajudaram a criar aquelas rugas. Talvez naquela dia, foi tão engraçado… ! Ou talvez com aquela vitória, com aquela conquista… e talvez aquela ruga sob seus olhos tenha ficado mais aparente depois da perda daquele ente querido…

Quando rio, eu rio tão abertamente, que pequenas ruguinhas se formam, são as ruguinhas do meu sorriso. E os anos vão passar, e eventualmente essas ruguinhas irão permanecer mesmo quando eu não estiver sorrindo, e eu vou ficar feliz – vou ficar feliz porque estas serão as marcas de que eu ri muito. E terei marcas provocados pelo choro, pela raiva, pela alegria… como isso pode ser ruim?

Um sorriso

Essa marquinha do meu sorriso um dia se transformará em ruga... e isso será realmente ruim?

Não há necessidade para radicalismo, claro – assim como um museu ou um prédio histórico precisa de manutenção para ostentar sua história da melhor forma, seu rosto e seu corpo também podem ser bem cuidados para realçar  suas melhores lembranças, suas melhores marcas. Mas não deveria existir a necessidade de transformar esse cuidado em uma revolução, em uma descontrução de coisas que são tão belas, tão icônicas. Não deveria existir a necessidade de, ao se chegar a certa idade, destruir sua expressão com coisas como botox e derivados.

Acho que, no fundo, eu só gostaria de poder dizer aos meus pais, aos meus tios, aos meus avós… que eu amo suas rugas, então, por favor, não tenham vergonha delas. Não sejam superficiais em ver apenas aquilo que está na superfície… vejam as marcas do tempo em sua pele, as memórias, as experiências, impregnadas em sua pele… e então vocês talvez concordem comigo sobre a beleza das rugas.