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Mar/10
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O Preconceito Não é Ruim

Porque, veja bem, formar um conceito prévio a respeito de alguém pode ser de imensa utilidade. Afinal, isso pode ajudar na hora de decidir sobre o que conversar, sobre o que perguntar, que palavras usar. Qual o grande problema em imaginar que uma garota provavelmente não joga videogame e não gosta de carros? Qual o grande problema em imaginar que um garoto provavelmente não sabe cozinhar?

De todo um universo de possibilidades, é de extrema utilidade ter uma ferramenta para, inicialmente, se aproximar de uma pessoa. Ou se afastar.

O preconceito não é ruim nem mesmo quando se pensa coisas ruins a respeito de outrem. Oras, eu particularmente não costumo me dar bem com pessoas muito religiosas, então costumo evitar muitas conversas com pessoas que eu percebo que são muito religiosas. Eu acho que tenho o direito de escolher com quem prefiro conversar, não é mesmo?

Ou, do caso clássico: se eu estou andando de noite numa rua pouco movimentada e me sinto seguida por um homem encapuzada, realmente não há nenhuma lógica em de repente ir para um lugar mais iluminado? Ou entrar em algum estabelecimento que estiver aberto e com mais pessoas?

Não, o problema não é o preconceito – tal como uma arma, seu perigo consiste na maneira em como é usado. Em como serve de amparo para práticas cruéis, sádicas, desumanas…

Voltando aos exemplos anteriores, qual a lógica em se virar e ameaçar ou se tornar agressivo com alguém que pareça estar lhe seguindo? Ou, no caso das pessoas religiosas, que direito eu tenho de atacá-las por terem uma crença diferente da minha? Eu não tenho a obrigação de concordar com elas mas, no mínimo, tenho o dever de respeitá-las. Por quê? Porque eu espero ser respeitada.

Eu não sou religiosa, mas acho que todos seriam melhores se tentassem seguir algo simples como “não faça aos outros o que não querem que façam com você”, algo que Jesus teria dito na forma de “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

Ou ainda, “sua liberdade termina onde começa a do outro”.

Parece tão simples, não é mesmo? Eu sigo minha vida, tendo minhas opiniões, fazendo o que eu acho correto, e permitindo que os outros façam o mesmo. É o que eu tento fazer, diariamente. Eu não sou obrigada a concordar com o modo de vida alheio, mas isso não me dá o direito de interferir na vida de alguém que não está interferindo com a minha. Eu não saio do meu caminho para ofender alguém de cuja opinião eu discorde – e se for para discutir, que se discutam as opiniões, não as pessoas.

Às vezes eu leio relatos de pessoas que sofreram preconceito – por sua religião, por sua cor de pele, gênero, “opção” sexual… me dá vontade de chorar. Por que fazer mal a alguém que não te fez nenhum?

E eu não entendo, praticamente todas as pessoas já sofreram preconceito em algum ponto de suas vidas – eu já fui discriminada por ser uma menina quieta e nerd. Sério, só por isso. Riam de mim, faziam brincadeiras de mal gosto. Normalmente eu nem percebia, mas tinha dias que eu chegava em casa e chorava até cansar. E foi algo durante um curto período de tempo da minha vida, em um grau bastante ameno. Enfim, um preconceito ínfimo em vista do que muitas pessoas sofrem. Mas foi mais do o suficiente para eu ter ciência do que é ser jogada de lado por ser… eu.  Tendo em vista isso… COMO alguém sofre abuso por conta de preconceito e… faz o mesmo? É sempre meio assustador ver negros homofóbicos, só para dar um exemplo qualquer, justamente por negros usualmente sofrerem tanto preconceito… e de repente eles não aprendem que não é correto, não é ético, PREJUDICAR alguém por conta de uma idéia pré-formada? Ou simplesmente impera a idéia de “se podem fazer comigo, posso fazer com os outros”? Ou então, religiosos com preconceitos contra gays… aqui, reina o ápice da hipocrisia: pregar o amor ao próximo, desde que o próximo seja da mesma religião, da mesma cor, mesma “opção” sexual… e de que preferência assista aos mesmos programas de televisão. Aí a gente ama. Senão a gente tem pena, e xinga.

Os atos movidos a preconceito possuam uma espontaneidade assustadora. As pessoas xingam, gritam, cospem, demitem, viram a cara, enfim, toda sorte de maldade, sem pensar duas vezes. Sem questionar a razão. Demitir uma pessoa por cor, credo ou opção sexual não faz o menor sentido, não se alimenta de qualquer tipo de lógica e, no entanto… acontece. O mesmo vale para aquelas pessoas que não passam da primeira fase de uma entrevista de emprego, que são mal atendidos em certos estabelecimentos… tudo por conta de um modo de vida, de uma característica sua, que não afeta sua capacidade de trabalhar, de se relacionar… por quê? Por que é tão fácil se esquecer que aquela é só uma pessoa como eu e você? E que tem tanto direito de viver sua vida quanto eu e você?

Sabe, todo mundo faz burradas. Todo mundo é grosseiro. Sinceramente, eu nem sou um bom exemplo – vez por outro dou patadas aleatórias nas pessoas. Sério, eu juro que tento, mas eu sou meio anti social, não sei lidar com as pessoas… às vezes magôo alguém e nem percebo. Mas sabem o que eu faço quando percebo que fiz cagada, que magoei alguém? Eu vou lá e peço desculpas. Às vezes eu percebo que machuquei MESMO e aí eu começo a chorar feito uma menininha – mas, tudo bem, eu sou mesmo uma chorona. Eu aprendo, porque eu percebo que foi um erro – hoje em dia é bem mais raro eu magoar alguém só porque estou num dia ruim, porque eu aprendi a me controlar. Porque aprendi com meus erros.

Mas quando alguém ofende alguém pelo preconceito, essa pessoa não enxerga o próprio ato como erro, mas o justifica de alguma maneira injustificável – “mereceu, para aprender a ser homem”, “tem que sofrer, negro vagabundo”,”religioso é tudo retardado, tem que mandar se foder”,”empregado só serve para obedecer, tem que abrir a boca não”. E, ao não admitir o erro, persistem em atos perversos contra quem não fez nada para provocar tal ira.

Sabem o que é preconceito, na minha vida? Eu uso assim: imagino umas características da pessoa pelo que eu posso ver. E, assim que eu tenho contato com a pessoa, começo a desmanchar esse preconceito e colocando uma imagem da pessoa no lugar. E não é que aquela menina adora videogame? E aquele menino, como cozinha bem… :)

Na verdade, nem sei se meu preconceito é bem preconceito, de tão aberto. Mal se pode dizer que formo uma imagem. E a pequena imagem que formo, deixo sumir assim que começo a conhecer a pessoa… afinal, é sempre melhor conhecer uma pessoa do que o preconceito, não é mesmo? :)